segunda-feira, 7 de abril de 2008

Naquele março

É impressionante, mas alguns acontecimentos da nossa infância nos deixam marcados de tal forma que nem conseguimos esquecê-los.

As sensações, os cheiros, os detalhes, tudo muito vivido. Tudo muito real.

E é assim, com a mesma riqueza de detalhes que eu recordo minha primeira lembrança de desgosto e rancor por aquela a quem deveria respeitar. É uma dessas lembranças que ficaram tatuadas na minha mente e por mais que eu faça é difícil não te-las como um “trauma”.
Recordo exatamente a raiva que senti dela. Lembro que naquele dia fui dormir chorando e jurando pra mim mesmo que nunca mais faria nada pra ela.
Essa foi a primeira vez que a deixei fazer com que me sentisse péssima.

Mal sabia eu naquela época que ela seria mestre em fazer eu me sentir um fracasso.

Na escolinha quando eu tinha por volta de 4 anos. Durante as aulas de arte, estávamos fazendo objetos de macarrãozinho, miçanguinha, e sementinhas. Fazíamos pulseiras, colares, brincos. Fazíamos colagem e o que mais fossemos capazes de inventar.

Era horrível o resultado, mas isso era o que menos importava porque nos divertíamos muito.
Nessa época passei a ter minha melhor amiga. Minha primeira amizade.
Claro que nas aulas de arte eu e ela éramos parceira. Criávamos juntas, dividíamos nossas idéias e riamos muito.
Num determinado dia, lembrei que era aniversario "dela" e eu e essa amiguinha resolvemos fazer um colarzinho pra dar de presente a ela.
Péssima idéia, porque se eu soubesse o que aconteceria, teria esquecido a data e assim não carregaria aquela sensação.
Como eu ainda não tenho uma maquina do tempo para alterar o ocorrido, levei o colarzinho pra casa. Coloquei numa caixinha com mais umas sementinhas que tinha sobrado, e fiquei esperando para presenteá-la.
Acho que se fosse outra mulher teria me aplaudido, mas ela não!
Naquela maestria de fazer qualquer um passar mal, ela olhou para aquilo...Eu ainda nem tinha entregado a ela!
Pegou na mão, perguntou quem tinha me dado, e a tonta aqui, com a fala simples de qualquer criança foi respondendo que foi a tia (foi a tia mesmo quem deu, mas quem fez era outra historia.)... E nem deu tempo pra falar que quem fez foi eu, ela já havia jogado no lixo. Disse qualquer coisa que não consigo lembrar exatamente. Só lembro daquela sensação! Cheguei a ficar com raiva da minha amiga, da nossa idéia, mas não era culpa minha. Como poderia ser culpa de qualquer coisa?
Pela primeira vez na vida senti que era desmerecida. Que o que tinha feito só servia para o lixo!
Não me interessa quem ela achava que tinha feito. Não interessa o que ela pensou. Naquele momento interessava o porquê ela estava recebendo aquilo.
Mas imagine se ela foi capaz de perguntar o porquê estava com aquilo. Ela só foi capaz de presumir que a professora tinha dado pra ela. Mas mesmo que isso fosse verdade ela não podia desfazer tão facilmente de uma gentileza.

Enfim, me lembro que foi ali, naquele momento, que pela primeira vez ela me fez chorar e me sentir um lixo.
Se eu soubesse que fazer me sentir um fracasso seria o hobby predileto dela, eu teria preparado melhor a minha blindagem.

Nossos atritos atualmente são crescentes. E eu não consigo parar de pensar naquele mês de março, onde pela primeira vez ela me mostrou o quanto desagradável era sua personalidade.

Aquele março foi apenas uma previa do que viria pela frente.

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