quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ridículo

Deu dois passos para trás.

Três para frente.

Olhou mais uma vez no espelho. Ajeitou a camisa.

Ridículo! Isso é ridículo!

Quem será que teve a brilhante idéia de dizer que devemos treinar na frente do espelho!?

É ridículo!

Mas é melhor treinar e ser ridículo diante do espelho do que improvisar e ser mais ridículo na frente dela.

Ele conferiu se estava sozinho no quarto. Conferiu se as janelas estavam fechadas. Aproximou-se novamente do espelho. Encheu o peito de coragem. E olhou aquela fisionomia tão conhecida...

Sentiu-se perdido. Desamparado. Ridículo.

Então é isso que ela vê quando me mostra aqueles olhos verdes?Esse rosto marcado pelo sol. Esses olhos profundos. Ela vê isso!

Coitada! Coitado de mim!

Ele fixou seu olhar naquela fisionomia melancólica e perdeu-se em pensamentos tristes, pensamentos solitários, pensamentos de rejeição.

Em um estalo voltou sua mente para ela. Voltou para o seu monologo.

Acho melhor treinar agora diante desse maldito espelho vendo o que de ridículo não poderei fazer!

Pelo menos saberei o que ela estará olhando quando eu disser que a amo.

Espero que não me ache mais ridículo do que vejo.

Acho que vou começar assim...

...

Sou um maldito covarde!

Nem no escuro. Nem sozinho. Nem pra mim mesmo consigo dizer o que sinto!

Franziu a testa.

Colocou as mãos no bolso.

Encheu o pulmão de ar.

Abriu a boca. E tentou mais uma vez.

...

Ridículo!

Fala seu besta!Seu merda! Fala agora!

Ninguém ta te vendo! Ninguém ta te ouvindo!

...

Mais uma vez encheu o pulmão. E lembrou daquele sorriso sempre emoldurado pelo brilho rosa daqueles lábios.

Eu te amo!

É...

Eu te amo. E já faz muito tempo.

Toda vez que te vejo meu coração dispara. Meu estomago se revira. E um sorriso nasce nos meus lábios.

Toda vez que escuto sua voz. Sinto seu cheiro. Toco sua pele. Fico com a sensação de que o mundo faz sentido.

Eu te amo.

Eu quero você.

Não posso continuar negando tudo o que sinto por você. Eu não consigo mais pensar em outra coisa... seu corpo, sua boca, seu olhar.

Espero que ela me interrompa bem nesse ponto, porque acho que não vou conseguir ficar diante dela muito tempo. Já estou suando. Morrendo de medo.

Medo de rejeição.

Se ela vier com aquele papo de apenas amigos será meu fim...

... como continuar amigo sem poder te-la?

Procurou afastar a idéia de rejeição e conferiu sua roupa, seu cabelo, e repassou os eu te amos.

Saiu do quarto. E foi em direção a casa dela.

Não teria tempo de repassar o que deveria dizer, afinal, ela era sua vizinha.

Suando nas mãos e quase sem pensar ele tocou a companhia da casa.

Aquele barulho agudo e nervoso transformou a ansiedade em taquicardia.

O barulho do outro lado da porta lembrou que já era tarde para mudar de idéia e sair correndo.

A fresta foi crescendo e ela surgiu. Sorrindo e linda.

- Oi Alê! Não foi na natação hoje?

- Não. Hoje, não.

- Que cara é essa!? Tá esquisito! Tá tudo bem?

-Tá... ta... é que...

- É que... o que?

- É... é...

...

- Vamos Alê, é o que? Desembucha!

- ... é...é... Me da um copo d água!

Covarde! Chega a ser imbecilidade essa covardia. Francamente! Um copo d água!

Copo d água... Era pra dizer eu te amo, seu idiota ridículo!

Seguiu ela até a cozinha. Sua cabeça empesteada de covardia procurava acalmar o estomago e disfarçar o nervosismo. E mais uma vez adiou a declaração.

Ainda imerso naquela covardia, assustou quando ela entregando o copo de água passou a mão no lado esquerdo do rosto dele.

Tão carinhosa. Tão afetuosa.

- Você é sempre tão tenso Alê. Relaxa um pouco. Sou só eu!

Tentou entender o que ela estava dizendo, e achou que talvez, seria esse o momento de dizer...

- Me dá mais água!

Covardia transpirava naquele corpo.

Amor. Paixão. Tudo muito intenso, mas insuficiente para vencer a covardia e o medo da rejeição.


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