terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Coração Apaixonado

Eu fiquei ali assistindo os dois por uma tarde inteira.
Eles nem me perceberam, preocupavam-se apenas com aquela brincadeira que construíram como desculpa para o toque. Ele puxava a mão dela para o peito, e ela sentia o coração dele batendo. Ela, então, puxava a mão dele e enroscava-a na sua. Ele se soltava dela e puxava novamente para o peito. E ela, com uma autoridade macia, desrespeitava a vontade dele e puxava mais uma vez a mão dele enroscando-a na sua.
Perdi a conta de quanto fizeram esse movimento mecânico. E não me importei.
Deixei os pensamentos correrem naquele ritual. Talvez por falta de imaginação, da velhice precoce, ou sei lá o que, não consegui achar sentido para aquele ritual.  E nem sei se precisava realmente catalogar a atitude daqueles dois para que algo fizesse sentido. De repente percebi que minha ignorância não importava e não mudaria o sorriso dos dois. E assim, sem pensar nos porquês, que sempre me perturbaram, fiquei ali assistindo a eles, naquela brincadeira que trazia ares de romance, naqueles gestos que me faziam invejar quem carrega um coração apaixonado.

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