quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Bem domesticada

-Sou uma pessoa esquisita! Não sirvo pra nada!
-Será mesmo? Ou fizeram você acreditar nisso?
Ele deve ter razão. É, ele tem razão!
Talvez a esquisita não seja eu. Talvez, realmente, me empurraram essa idéia goela abaixo. Talvez eu sempre fui uma pessoa normal, não havia nada errado, mas ela precisava fazer acreditar nisso para, assim, me dominar. Talvez seja isso mesmo! Talvez seja por isso que hoje eu acredito nisso, e me desvalorize, me desmereça tão facilmente.
Deve ser essa a explicação!  Ela me empurrou, me vendeu a idéia da esquisitice, da monstruosidade, e eu, muito ingenuamente, assumi a personagem. Mas agora que descobri, agora que entendi o porquê ela insistia em me humilhar, em imputar uma inferioridade que não existia, darei um basta. Chega! Ela me fez acreditar que havia algo de errado, que eu precisava de mudança, quando a verdade era justamente outra, não há nada de errado em ser como eu sou.
Com os seus pensamentos em transito, saiu do terapeuta meio aliviada, meio perturbada, meio transtornada e meio enfurecida. Dirigiu por horas sem destino, mas resolveu voltar para casa.
-Se perdeu pelo caminho pra demorar tanto?
-Não. Só perdi a noção do tempo, foi isso!
-Acha que todo mundo é como você, que não tem hora pra nada? Custava ter ligado avisando que iria perder a noção do tempo?
Quis responder, quis soltar um palavrão, quis matar aquela velha filha da puta, mas a única coisa que foi capaz de fazer foi encolher os ombros e se esconder no quarto. E na  solidão do seu espaço acabou percebendo que foi bem domesticada para se erguer contra a adestradora.

Um comentário:

  1. Costumo ficar com medo de pessoas assim. São as piores nos momentos que menos espero.

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