terça-feira, 6 de maio de 2008

Retrato

Escolheu o vestido mais bonito. Embora o mais sério. Cinza.

Maquiagem muito pouca, apenas um batom, uma base, e apenas isso. Imaginava que com seus 65 anos não havia mais maquiagem que pudesse esconder a ação do seu passado.

O cabelo preso, em um coque no alto da nuca.

Sapatilha preta.

As vestes sóbria e a sisudez apenas refletiam a personalidade solida daquela senhora apática.

Venceu os 33 degraus que a separavam de seu vizinho.

Sem cansaço. Sem ofegar.

Contente. Serena.

Tocou a companhia e esperou que o jovem fotografo a recebesse.

-Boa tarde, dona Rosa. Em que posso ajudá-la?

-Boa tarde meu filho. Lembra que você ficou de tirar meu retrato? Pois então, meu jovem, estou eu aqui, pronta para o retrato.

-Claro, dona Rosa. Vamos entrando. Me de cinco minutinhos para preparar tudo...

Rápido.

Sem dialogo.

Em apenas 10 minutos a pose escolhida ficou gravada.

Não foi preciso segundo disparo.

As características daquela face não foram atenuadas, ao contrario, explodiam com a mesma fidelidade bruta daquela personalidade.

Todo o talento do fotografo foi vencido pela estática daquele olhar inexpressivo. E mesmo querendo continuar com a sessão de foto, mesmo querendo que ela relaxasse, deixou de lado a vontade de vencer aquela barreira de infelicidade . Sem conseguir expor um sorriso em dona Rosa, o rapaz foi obrigado a deixar que ela partisse carregando aquela imagem depressiva.

-Obrigada meu filho. Ficou ótimo. O retrato ficou do jeitinho que tinha imaginado.

-Fico contente em saber. Mas da próxima vez, vai ter que sorrir! Saiu tão seria! Tão triste, dona Rosa.

-Meu filho, seria de mau gosto, eu, toda alegre e sorridente, no retrato para a lapide. Meu falecido marido não iria aprovar.

E foi-se.

Deixou o jovem mergulhado em pensamentos e melancolia.

-Retrato para lapide?!


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